ATIVIDADE RECUPERATÓRIA (ANDRÉ FRANCO MONTORO – VINHEDO) – SEMINÁRIOS – 6ª / 7ª

O compasso do mundo
Há 300 anos, a elite política e cultural do Ocidente se reúne em salões fechados para participar de rituais cheios de códigos misteriosos. Saiba o que é a maçonaria, como ela surgiu e de que forma influenciou grandes acontecimentos históricos
por Tiago Cordeiro
O primeiro presidente dos Estados Unidos, George Washington, era maçom. Depois dele, outros 16 líderes da nação mais poderosa do mundo também foram: a lista inclui John Edgar Hoover, diretor do FBI por 45 anos, e Harry Truman, o homem que autorizou o ataque com bombas atômicas sobre o Japão. Também fizeram parte da sociedade secreta dois políticos decisivos para a vitória aliada na Segunda Guerra Mundial, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt e o primeiro-ministro britânico Winston Churchill. Eram maçons alguns dos mais importantes líderes da Revolução Francesa, como Jean-Paul Marat e La Fayette. O revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi e os libertadores da América espanhola, o argentino José de San Martín e o venezuelano Simon Bolívar, também. O articulador da independência do Brasil, José Bonifácio de Andrada e Silva, pertencia à ordem, assim como o duque de Caxias e nosso primeiro presidente republicano, marechal Deodoro da Fonseca.Por tudo isso, não é exagero afirmar que o mundo em que vivemos foi definido por essa sociedade secreta, que há 300 anos reúne a elite política e militar (e cultural) do Ocidente em rituais cheios de códigos misteriosos.Mas o que é maçonaria? Existem várias versões para a criação da organização. A mais confiável remete à Idade Média, quando o controle do comércio era feito pelas guildas, corporações de ofício que reuniam artesãos do mesmo ramo e funcionavam como um antepassado dos sindicatos. Um dos grupos mais poderosos era o dos pedreiros (em inglês, masons). Responsáveis pela engenharia e pela construção de castelos e catedrais, eles tinham acesso aos reis e ao clero e circulavam livremente entre os feudos. Apelidados de free masons (pedreiros livres), se reuniam nos canteiros de obras e trocavam segredos da profissão. Para se identificarem em locais públicos e evitarem o vazamento de suas conversas, criaram um sistema de gestos e códigos. Durante o Renascimento, os pedreiros livres ficaram na moda. Seus encontros passaram a acontecer em salões, chamados de lojas, que geralmente ficavam sobre bares e tavernas das grandes cidades, onde a conversa continuava depois. Intelectuais e membros da nobreza engrossaram a turma. Por influência deles, os debates passaram a abranger religião e filosofia. Em 24 de junho de 1717, numa reunião das quatro maiores lojas de Londres (então o maior centro maçom europeu), na taverna The Goose and Gridiron nasceu uma federação, a Grande Loja de Londres. Era o início oficial da maçonaria.
Revista Aventuras da História – edição 64 – editora Abril

Mar Morto: fragmentos da fé
Descobertos ao acaso por pastores em 1947, os Manuscritos do Mar Morto fizeram com que judeus e católicos revissem a história de suas religiões. Ainda não totalmente decifrados por pesquisadores, eles estarão, em breve, disponíveis na internet
por Adriana Maximiliano
Desde o século 19, apenas dois grupos de pessoas circulavam pela desértica vizinhança das ruínas de Qumran, a noroeste do mar Morto: arqueólogos e pastores beduínos. Depois de mais de cinco décadas de exploração, o primeiro grupo de profissionais concluiu que aquela região da Palestina (atualmente em território israelense), chamada de Cidade do Sal na Bíblia, fora um pequeno forte romano. Os outros trabalhadores não se preocupavam com isso. Estavam sempre de passagem, pastoreando cabras no trajeto entre o rio Jordão e Belém. Costumavam acampar às margens do lago com nome de mar, enquanto os animais matavam a sede em uma das maiores nascentes locais, a cerca de 1 quilômetro das ruínas. Mas foram justamente eles, os pastores beduínos, que fizeram em Qumran a maior descoberta arqueológica do século 20. E tudo por causa de uma cabra desgarrada. No fim de uma tarde de 1947, o animal subiu os rochedos de Qumran e desapareceu da vista de seu pastor, Juma Muhammed Khalil. A noite caía e Khalil precisava reunir o rebanho para voltar ao acampamento. Depois de subir cerca de 100 metros em busca da tal cabra, viu dois buracos na pedra. Eram cavernas. Se o bicho estivesse escondido ali, não seria fácil recuperálo. As aberturas eram estreitas e ficavam nas partes mais acidentadas da montanha. O pastor, então, atirou uma pedra dentro de um dos buracos. Mas, em vez de um balido, ouviu o barulho de cerâmica se quebrando. Seria um tesouro escondido? Era tarde para descobrir. Começava a escurecer, Khalil tinha medo de entrar na caverna, não conseguir mais sair e… a curiosidade mataria um beduíno no deserto da Judéia. O melhor era retornar ao acampamento de sua tribo, Taamireh, às margens do mar Morto. E foi exatamente o que ele fez, mas com o plano de voltar no dia seguinte. Ao chegar ao acampamento, o muçulmano Khalil contou o que tinha acontecido para seus primos. O mais jovem, Muhammed Ahmed el-Hamed, apelidado de “o lobo”, mal conseguiu dormir com a notícia. Passou a noite sonhando acordado com o tesouro. Ao amanhecer, antes que os outros acordassem, El-Hamed seguiu sozinho para os rochedos e encontrou os tais buracos. Com esforço, entrou por um deles e caiu entre entulhos e estranhos jarros de barro. Ansioso, o pastor vasculhou um por um os jarros. Alguns estavam vazios, outros continham manuscritos em pergaminho ou pele de animal. Nada de ouro ou pedras preciosas. Desiludido, levou para o acampamento o que encontrara. Khalil ficou furioso por dois motivos: a traição do primo e o conteúdo pouco promissor dos jarros.
REVISTA AVENTURAS DA HISTÓRIA – EDIÇÃO 65 – EDITORA ABRIL
Índia: o passado do futuro
Na civilização mais antiga do mundo, ritos milenares convivem com a modernidade, graças à força da tradição oral, à religiosidade aguda e à extraordinária mitologia. Não é à toa que traços dos nômades vindos da África há 70 mil anos ainda sobrevivam no país
por Mariana Sgarioni
Virumandi é um pequeno agricultor de 30 anos que vive com sua família nas montanhas de Tamil Nadu, no sul da Índia. Como todos de seu povoado, ele se casou com uma prima de primeiro grau, repetindo um rito milenar. Mal sabia que, graças a essa tradição, estava ajudando a preservar um dos mais valiosos e antigos patrimônios genéticos de que se tem notícia. No ano passado, pesquisadores da Universidade de Madurai detectaram no DNA de Virumandi rastros dos primeiros migrantes da humanidade. Ou seja, de pessoas que viveram há incríveis 70 mil anos e que estavam entre os primeiros Homo sapiens, anteriores mesmo ao surgimento da linguagem, que só apareceu há cerca de 15 mil anos. É fascinante imaginar que milênios depois, apesar de todas as migrações, invasões, guerras e colonizações, traços de um passado tão remoto ainda se encontrem na Índia. Segundo o cineasta francês Jean-Claude Carrière, nesse país de milhares de idiomas, milhares de deuses, aromas, sabores, e de 1,1 bilhão de habitantes, o “passado não é o passado”. “Aqui, ele é apenas uma das formas do presente, que o assimila e o alonga”, escreveu.Além do hábito dos moradores de Tamil Nadu de se casarem com seus primos, o país tem uma fortíssima tradição oral e um sentimento extremo de religiosidade. Esses dois aspectos se refletem numa mitologia incontida, que se multiplica constantemente em deuses e cerimônias diferentes e é responsável por manter o passado tão vivo. Os novos não destroem os antigos, mas se acumulam e se misturam. Alguns ritos continuam idênticos ao que sempre foram, geração após geração. Um exemplo são os cânticos religiosos (ou mantras), sons milenares, semelhantes aos dos pássaros, entoados até hoje da mesma maneiracomo o faziam os homens antes de saberem falar. Isso tudo em um país que se tornou um dos gigantes da modernidade, pólo tecnológico, comuma economia que cresce mais de 8% ao ano. Pois no sangue do agricultor contemporâneo Virumandi e no de todos de seu povoado, os pesquisadores encontraram o gene M130, o mesmo que estava na composição genética dos primeiros homens que saíram da África, seguiram a costa do mar da Arábia e foram parar no sul da Índia. Pode-se dizer que todos aqueles que não são africanos têm suas origens nesses primeiros indianos que habitaram o subcontinente, que incluía, além da Índia, a região dos atuais Paquistão e Bangladesh. A fertilidade das terras locais fez com que alguns decidissem ficar, enquanto os demais continuaram migrando e povoando o mundo. Passado arqueológicoOs que ficaram organizaram-se. Pesquisas arqueológicas feitas no vale do rio Indo, a partir do século 19, identificaram uma das primeiras civilizações do mundo, maior que as do Egito e da Mesopotâmia juntas, ocupando mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados de território. Indicaram, também, que essa sociedade, a civilização do vale do Indo, tinha uma estrutura bastante desenvolvida e viveu seu ápice no período aproximado entre os anos 3000 e 2000 a.C. As ruínas das cidades de Moenjodaro e Harappa, os principais sítios arqueológicos dessa população antiga, mostram, ainda, que ela era urbana, mercantil e agrícola. Dividida em bairros, cortados por ruas, formando quarteirões geometricamente exatos, Moenjodaro (ou Colina dos Mortos) é conhecidacomo “cidade moderna da Antiguidade”. As casas eram simples, feitas de tijolo e madeira, mas com infra-estrutura sofisticada: cisternas, salas de banho, equipamentos sanitários, andares superiores e inferiores. Havia também edifícios públicos que, de acordo com os estudiosos, devem ter servido a uma administração central, composta principalmentepor autoridades religiosas. Essa civilização precoce, dirigida por sacerdotes, é o ponto a partir do qual se traçam as raízes do hinduísmo. Foram encontradas figuras femininas de barro que, acredita-se, representavam uma deusa-mãe, maistarde personificada como Kali, divindade assustadora, de identidade imprecisa, que costuma ser associada ao tempo e à morte. Outra escultura desse período é uma figura masculina, com três faces, sentada em posição de ioga e rodeada por quatro animais. É uma das mais antigas representações do deus Shiva, aquele que dança, enquanto faz o mundo se mover e as ilusões se afastarem, símbolo do princípio criativo. Pilares de pedra preta, da mesma época, também foram interpretados como o falo desse deus poderoso. A civilização do Indo entrou em declínio a partir da invasão dos ários, ou arianos. Esse povo vivia provavelmente na Ásia Central, no planalto que hoje é o deserto de Gobi, entre o norte da China e o sul da Mongólia. Seus guerreiros eram altos e tinham a pela clara. Penetraram pelo noroeste da Índia, região do Punjab, entre 1500 e 800 a.C. Alguns desses invasores excursionaram para o oeste e se tornaram os antepassados dos gregos, celtas e latinos. Outros ficaram no vale do Indo e dominaram os habitantes locais, que, a essa altura, já eram indianos de pele escura, descendentes daqueles que tinham vindo da África. A civilização do vale do Indo (chamada dravidiana) acabou por força da presença ariana, mas a língua que ela engendrou é falada até hoje, em diversas regiões do sul da Índia. A vez dos VedasA invasão ária foi determinante para o início de uma nova civilização: a védica. Ela criou os Vedas, poemas e hinos sagrados, bastante complexos, que trazem as regras, a inspiração e o sentido do hinduísmo. Toda a base do que é a cultura da Índia atual está nos Vedas, cuja autoria é atribuída ao próprio Krishna, encarnação de Vishnu, um dos três deuses mais importantes da religião (ao lado de Brahma e Shiva). Compostos em sânscrito, eles descrevem rituais politeístas e normas sociais, em que se destaca a supremacia dos sacerdotes, ou brâmanes. É lá que está também a divisão da sociedade por castas. “No sistema de castas, a vaca é considerada mais pura que os brâmanes. Não pode ser morta nem ferida e tem passe livre para circular pelas ruas, sem ser incomodada por ninguém”, afirma Dwijendra Narayan Jha, professor da História da Universidade de Délhi. O sistema de castas é o calcanhar-de-Aquiles da sociedade indiana e ainda exerce forte influência na divisão de classes do país, embora o Estado moderno lute contra ele por meio de políticas públicas que buscam equiparar os direitos entre os cidadãos. Os escritos antigos dividiam as pessoas “de cor” (origem do termo casta, em sânscrito), ou seja, os não-brancos ou não-arianos, de acordo com status e distribuição do trabalho. Essa segmentação valia para sempre, o que significa que não era possível haver nenhuma mobilidade social dentro da família. Em tese, a casta de uma pessoa e de todos os seus descendentes já está definida no seu nascimento, porque, do ponto de vista da religião, cada um nasce com um carma que vai precisar cumprir para que sua próxima vida seja mais afortunada. Quem nasce numa casta alta, por exemplo, é porque teve uma vida passada espiritualmente elevada, portanto acumulou um bom carma e foi recompensado nesta vida. Por isso, os sacerdotes (brâmanes), situados no ponto mais alto das castas, são protegidos e não devem trabalhar. Sua responsabilidade é dedicar a vida ao cultivo da espiritualidade e à transmissão de seus ensinamentos. Quem está nas castas inferiores é que deve trabalhar por eles. No livro Índia – Um Olhar Amoroso, de 2001, Carrière conta ter esbarrado, nos jardins de Bombaim (atual Mumbai), com homens usando “turbantes magníficos, tendo à sua volta finas hastes metálicas, pedaços de algodão e óleo”, representantes da inusitada “casta doslimpadores de orelhas”. Mas tentar fugir de seu destino, ou de sua casta,pode ser uma decisão de alto risco. Quem ousa (ou já ousou um dia) tentar melhorar de vida, procurando um emprego melhor ou casando com alguém de casta diferente, por exemplo, pode se tornar um pária, o pior castigo para qualquer indiano. Os párias, tradicionalmente, não tinham direito a nada, eram obrigados a fazer os trabalhos mais degradantes e sequer podiam comprar roupas – precisavam tirar as vestimentas dos cadáveres para usar. Suas casas (ou taperas) eram construídas com objetos encontrados no lixo, como louças quebradas Buda, o iluminadoOs escritos védicos, contudo, não traziam apenas as castas. Estão lá regras de casamentos, dietas alimentares, além da complexa estrutura do politeísmo indiano. “Por que ter apenas um deus, quando se pode termilhões?”, brinca o historiador indiano Ram Nath, ex-diretor do departamento de História na Universidade de Rajastão. Os Vedas também contêm a base da medicina ayurvédica, fundada pela civilização do Indo e praticada até hoje por cerca de 400 mil médicos emtoda a Índia. Dos Vedas saíram, ainda, os grandes épicos indianos, como o Mahabarata, com cerca de 200 mil versos em sânscrito, que conta histórias dos deuses. É um texto sagrado que contém o Bhagavad Gita, outro texto fundamental para o hinduísmo. O mesmo homeageado pela canção de Raul Seixas. Acontece que a religião na Índia não parou nos Vedas. A confluência, sincretismo ou como se chame a mistura incrível de deuses e mitos que se vê no país ocorreu principalmente a partir do século 6 a.C. Entre 543 e 549 a.C., não se sabe ao certo, nasceu o príncipe indiano Sidarta Gautama, na região da cordilheira do Himalaia, no sul do atual Nepal. Viveu no palácio de seus pais, cercado de prazeres e protegido das dores do mundo. Até que, aos 29 anos, conduzido pelo cocheiro Chandaka, saiu pela primeira vez desse jardim paradisíaco para percorrer as ruas da cidade, e descobriu, espantado, a existência da velhice, da doença, da morte e da pobreza. Chocado com o que viu, saiu pelas estradas decidido a encontrar um meio de livrar o homem do sofrimento. O príncipe abriu mão de todas as suas riquezas, tornou-se um asceta, experimentou a iluminação e passou a divulgar os fundamentos do budismo, que, por princípio, condenava o sistema de castas vigente. No mesmo período, Mahavira, outro líder religioso que, segundo a tradição, teria vivido entre 599 e 527 a.C, fundou o jainismo. A religião tem vários elementos comuns ao budismo e também propõe, entre outras coisas, a não-violência e um rígido regime asceta. Mas o budismo foi mais difundido globalmente. Acabou se espalhando pelo mundo, quando as tropas de Alexandre, o Grande, atingiram as fronteiras do subcontinente indiano, em 334 a.C. O monarca macedônio fundou diversas cidades na região e trouxe grande influência da cultura grega para a Índia. A miscelânea religiosa continuou. Outro propagador do budismo foi o imperador Ashoka, da dinastia Maurya. Ele governoua Índia entre 273 e 232 a.C. e é frequentemente citado como um dos maiores imperadores da história do país. Conseguiu dar fim às disputas por territórios que provocavam grande matança na época e foi, ele próprio, um bem-sucedido conquistador. Seu império se estendia dos atuais Paquistão, Afeganistão e partes do Irã até Bengala e aos estados indianos de Assã, a leste, e de Mysore, ao sul. Mas esse guerreiro se converteu ao budismo e disseminou a religião por toda a Ásia Oriental. Ironicamente, o budismo só não fixou raízes na própria Índia. Entre outras razões, devido a uma outra influência que viria séculos depois, resultado da invasão muçulmana. O avanço do islamismo foi outro golpe na sociedade de castas. Na verdade, as invasões ao território indiano sempre foram comuns e, na maioria das vezes, os estrangeiros acabavam absorvendo a cultura local. Com a chegada dos muçulmanos, no entanto, aconteceu o contrário. A primeira incursão muçulmana data do século 8, contra as cidades do Baluchistão, do Sind e do Panjabe, que se transformaram em estados islâmicos. No início do século 12, os turcomanos avançaram sobre o oeste e o norte da Índia. Fundaram o Sultanato de Délhi, que conseguiu proteger, por quatro séculos, a região dos ataques mongóis. Quando, finalmente, em 1600, a região foi anexada ao império mongol, que durou até meados do século 19, os mongóis, ao contrário do que se pensa, também absorveram a cultura local. Casaram com mulheres indianas e promoveram ampla integração cultural. Só tiveram de sair correndo porque, em 1857, os britânicos chegaram com tudo, sem dó nem piedade.O sal da terraDe certa maneira, os primeiros passos da Inglaterra para a dominação sobre a Índia aconteceram graças ao chá. No início do século 17, em 1615, uma missão diplomática da Companhia Inglesa das Índias Orientais negociou um acordo que dava à empresa direitos exclusivos para estabelecer fábricas em várias cidades indianas. Em troca desse monopólio destinado ao comércio do chá, a Companhia traria ao país produtos do mercado europeu. Mas fez bem mais que isso. Abriu as brechas por onde a Índia iria deixar escapar sua autonomia política. Na altura dos anos 1850, os britânicos já controlavam quase todo o subcontinente indiano, inclusive o território correspondente aos atuaisPaquistão e Bangladesh. A região sofreu com a dominação inglesa – e esse passado faz parte da memória recente do mundo. “Minha ambição é converter as pessoas britânicas à não-violência, e assim lhes fazer ver o mal que fizeram para a Índia. Eu não busco danificar as pessoas.” Ao explicar assim seu projeto político, tão simples quanto revolucionário, Mahatma Gandhi se referia às “Leis do Sal”. Elas proibiam os hindus, até o século passado, de produzirem seu próprio sal, fazendo com que tivessem de comprá-lo dos colonizadores britânicos. Na Marcha do Sal, como ficou conhecida a imensa manifestação de protesto contra esse interdito, Gandhi arrebanhou uma multidão que caminhou por 400 quilômetros, pacificamente, até a beira-mar. Era o dia 6 de abril de 1930. Depois do banho sagrado, Gandhi apanhou um punhado de sal perto do mar e o levantou nas mãos. Seu gesto foi repetido por milhares de indianos. E esse ato pacífico, mas cheio de significado, inspirou uma força brutal no movimento de libertação indiano. Seus seguidores eram o “Exército da Paz”. Anos depois, em 1947, sem derramar uma gota de sangue, a desobediência civil conclamada por Gandhi conquistou a independência da Índia. Gandhi (1869-1948) tinha suas bases profundamente enraizadas na religiosidade ancestral indiana. O que explica, em parte, o tremendo impacto de suas ações. Em quase todo o país, é possível ver representações de sua imagem – magro, envolto em panos de algodãobranco, de sandálias. Nascido em casta alta, Gandhi estudou na Inglaterra e morou muitos anos no exterior, até que retornou à Índiaem 1915, convencido da igualdade entre os seres humanos. Isso significou, na prática, ir contra o sistema de castas e a dominação britânica. Seu propósito era unir a sociedade hindu e a muçulmana na luta pacífica pela independência, baseada no uso da não-violência (princípio da satyagraha, que já estava nos preceitos antigos do budismo e do jainismo). A tática para protestar pacificamente era disseminar a desobediência civil, ou seja, a disposição irredutível de não cumprir as leis britânicas. Simples assim, embora esses desobedientes determinados tenham, muitas vezes, apanhado e morrido por não ceder. Para que o derramamento de sangue acabasse, Gandhi fez intermináveis greves de fome. Com a independência, vieram as dores da maturidade. O Paquistão se separou, e os dois países iniciaram uma disputa sangrenta pela região da Caxemira. O Partido do Congresso, a que pertencia Mahatma Gandhi, assumiu o governo da Índia, com o líder socialista Jawaharlal Nehru como primeiro-ministro. Ele foi sucedido no posto por sua filha Indira Gandhi e por seu neto Rajiv Gandhi. Gandhi, Indira e Rajiv morreram assassinados por extremistas, um cenário bem distante da não-violência que sempre defenderam. Em seus 60 anos de vida independente, a história da Índia incluiu três guerras com o Paquistão e um conflito armado com a China. Há também relatos de testes nucleares na Caxemira, a partir da década de 1970, o que gerou reações do Paquistão e sanções econômicas aos dois países por parte dos Estados Unidos.A Índia é hoje a maior democracia do mundo e, no ano passado, elegeu Pratibha Patil, a primeira mulher presidente do país. Sofre, contudo, com as divisões internas, que foram acirradas, nos últimos tempos, por forças islâmicas extremistas, responsáveis por ataques registrados recentemente na região.”Mesmo com todos esses conflitos, a Índia continua sendo um microscosmo da diversidade humana, sem perder sua unidade”, afirma o geneticista e pesquisador Ramsary Pitchappan, professor da Universidade de Madurai. Pode ser que as crianças indianas dos dias atuais cresçam numa superpotência emergente. Mas sabem, de ouvir contar de seus pais, que fazem parte de uma cultura milenar. E elas vão continuar contando a seus filhos e netos os segredos dessa epopeia que começou há 70 mil anos, e que está muito longe de desaparecer.
REVISTA AVENTURAS DA HISTÓRIA – EDIÇÃO 66 – EDITORA ABRIL
Pio XII: bendito ou maldito?
Pio XII foi eleito papa no mesmo ano em que a Segunda Guerra Mundial estourou: 1939. Até hoje não se chegou a uma conclusão sobre a postura do religioso durante o Holocausto. Afinal, a Igreja foi omissa? Uma reação firme teria evitado ou aumentado o número de inocentes mortos?
A reconciliação entre a Igreja e os judeus avançou mais nos últimos 40 anos do que em toda a História do cristianismo. Mas resta um grande obstáculo a superar: a campanha pela beatificação de Eugenio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, o papa Pio XII (1876-1958). Iniciada em 1965, a causa estava suspensa pelo Vaticano até outubro último, quando, durante a missa do aniversário de 50 anos da morte de seu antecessor, Joseph Ratzinger, o papa Bento XVI, argumentou pela retomada do caso. O problema é que líderes de organizações judaicas e famílias de sobreviventes do Holocausto acusam o sumo pontífice de omissão ante as atrocidades nazistas na Segunda Guerra Mundial, iniciada em setembro de 1939. Já o Vaticano assegura que Pio XII, que assumiu o papado há 70 anos, em março de 1939, atuou em silêncio para evitar o pior.Essa controvérsia causaria surpresa para muitos judeus que viveram durante o conflito. Albert Einstein (1879-1955), um refugiado do nazismo, e a primeira-ministra israelense Golda Meir (1898-1978), por exemplo, expressaram publicamente sua gratidão ao Santo Padre por salvar judeus do genocídio. A polêmica só ganhou força em 1963, com a peça de teatro O Vigário, do protestante alemão Rolf Hochhuth, hoje com 77 anos. Nela, Pacelli era retratado como um sujeito calculista e sem moral, que ignorou o sofrimento dos judeus em nome de interesses próprios. É uma obra de ficção, embora ancorada em ampla pesquisa do autor. Até que ponto ela teria algo de verdade?Essa é a pergunta que ainda hoje instiga os historiadores. Nos últimos anos, mais de dez livros foram lançados, com diferentes interpretações sobre a conduta do pontífice antes e durante o regime nazista. Em geral, eles podem ser divididos entre os pró e os contra Pio XII. Uns o acusam de ser cúmplice do Holocausto, enquanto outros garantem que ele atuou nos bastidores para salvar quantas pessoas pôde. Mas, antes de conhecer os argumentos dos dois lados, é preciso entender a situação do Vaticano nos anos anteriores à Segunda Guerra.Igreja ameaçadaO poder dos papas vinha naufragando desde a Revolução Francesa, em 1789. Na época, a razão começava a reinar sobre a fé, e os Estados modernos estavam dispostos a separar a religião da política. Durante o século 19, as propriedades da Igreja foram saqueadas e seus territórios viviam sob constante ameaça. Em 1809, o imperador francês Napoleão Bonaparte (1769-1821) chegou a sitiar o Vaticano e prender Pio VII (1742-1823). Na tentativa de diminuir o poder do catolicismo na França, ele manteve o pontífice confinado durante mais de quatro anos.Napoleão foi derrotado em 1815, mas o processo de unificação da Itália botou as terras da Igreja novamente em risco. Em 1860, o rei piemontês Vitório Emanuel II (1820-1878) já controlava quase todos os domínios papais do centro da Itália. Nessa época, surgiram duas correntes dentro da Santa Sé. Uma delas insistia no poder papal absolutista: a outra queria repartir esse poder com Igrejas nacionais independentes de Roma. A primeira alternativa levou a melhor no Concílio Vaticano I. A Igreja proclama, em texto de 1870, o dogma do papa incontestável e infalível. Os líderes nacionalistas logo deram o troco. Na Alemanha, na Bélgica e na Suíça, ordens religiosas foram expulsas pelos governos locais e o ensino ficou nas mãos do Estado. Na Itália, manifestantes protestaram durante o cortejo fúnebre de Pio IX (1792-1878) e só não jogaram o caixão no rio Tibre porque os seguranças agiram rápido e salvaram o cadáver do papa.Diplomata centralizadorDiante da crise, os novos líderes da Igreja tinham agora um duplo desafio: defender a integridade da instituição e recuperar o poder político entre os donos da Europa. Para isso, a Santa Sé investiu pesado na formação de diplomatas – entre eles Eugenio Pacelli, um romano nascido em 1876 numa família de juristas a serviço do Vaticano. Ele ajudou a reformular a legislação católica, a fim de conceder aos pontífices uma autoridade indiscutível. Em 1917, essas leis foram compiladas no Código de Direito Canônico.Partidos fechadosO outro trunfo de Pacelli era um doutorado sobre as concordatas, nome dado aos tratados que a Santa Sé usava (e continua usando) para regular suas relações com os Estados – por exemplo, para garantir o direito da Igreja de controlar escolas religiosas ou celebrar casamentos. Em novembro último, o Brasil assinou um acordo desse tipo com o Vaticano, que gerou críticas de entidades contrárias ao ensino religioso em escolas públicas e a outros privilégios de caráter não-laico.Durante décadas, o conteúdo desses tratados (em geral assinados pelo papa com os soberanos, ou por cardeais-secretários de Estado com embaixadores autorizados) tinha variado de acordo com o país. “Com o código de 1917, porém, a concordata virou um instrumento que impunha condições a bispos, padres e fiéis, sem consultas e em qualquer lugar do mundo”, diz o jornalista britânico John Cornwell, autor de O Papa de Hitler – A História Secreta de Pio XII.Foi uma dessas concordatas que o papa Pio XI (1857-1939) assinou em 1929, com o ditador italiano Benito Mussolini (1883-1945): o Tratado de Latrão. Elaborado pelo irmão mais velho de Pacelli, Francesco, o documento reconhecia o Vaticano como Estado soberano e o catolicismo como a única religião da Itália. Em troca, fechava o Partido Popular Católico. Por quê? Simples: o Vaticano queria os fiéis fora da política para não prejudicar sua hierarquia e influência.Muito antes de se tornar líder máximo dos católicos, Pacelli estava convencido de que a Igreja só permaneceria unida no mundo moderno com o fortalecimento da autoridade dos papas. Na década de 20, quando era embaixador do Vaticano na Baviera, ele tinha assinado esses acordos com a Rússia, a Letônia e a Polônia. Em 1933, já secretário de Estado do Vaticano, ele via no Tratado de Latrão o modelo perfeito para seu maior objetivo: uma concordata com a Alemanha, onde viviam cerca de 23 milhões de católicos.O único problema era o chanceler Adolf Hitler (1889-1945). “Pacelli e Hitler nutriam um desprezo mútuo. Cada um se sentia ameaçado pelo potencial do outro de exercer poder mundialmente”, escreve o jornalista americano Dan Kurzman no livro Conspiração contra o Vaticano. “Apesar da desconfiança, os dois viram vantagens – pelo menos temporárias – em frear o conflito com a assinatura de uma concordata em 1933.” O acordo tornou todos os alemães sujeitos às leis canônicas e acabou com o Partido do Centro Católico, a única agremiação democrática que ainda restava no país.Até aqui, não há grandes dúvidas a respeito do religioso. Os historiadores começam a se dividir a partir do momento em que o cardeal se tornou papa, em 1939. Afinal, ele foi omisso ou discreto durante o Holocausto?Contra Pio XIIPara Cornwell, o italiano não foi apenas omisso; ele ajudou o Führer: “Como disse Hitler, numa reunião ministerial de 14 de julho de 1933, a garantia de não-intervenção de Pacelli deixava o regime livre para resolver a questão judaica”. Isso não significa que Pacelli simpatizasse com o Partido Nazista. Ao contrário: não apoiava sua plataforma racista e via nele uma ameaça à religião. “Mas o temor ao nazismo era ofuscado por um medo ainda maior de Pacelli, o comunismo”, diz o historiador Michael Phayer, da Universidade de Marquette, nos Estados Unidos. Foi com essa mesma lógica antimarxista que a Igreja apoiou ditadores como Benito Mussolini, na Itália, e Francisco Franco (1892-1975), na Espanha. Valia tudo para conter o “perigo vermelho”. Até mesmo fazer um pacto com o diabo.Mas o ponto é: Pio XII ficou mesmo em silêncio durante o Holocausto? Nem tanto. O papa falou, sim, mas poucas vezes e de forma ambígua. Nos discursos de Natal que fez em 1941 e 1942, por exemplo, condenou a violência, sem mencionar “nazistas” nem “judeus”. No discurso de 1942, o mais importante, quando as atividades dos campos de concentração estavam no auge, ele afirmou: “A humanidade deve esse voto às centenas de milhares de pessoas que, sem qualquer culpa pessoal, às vezes apenas por motivo de sua nacionalidade ou raça, estão marcadas para a morte ou extinção gradativa”. Foi o ponto máximo de seu protesto diante das atrocidades de um regime que, ao fim da guerra, teria matado cerca de 6 milhões de judeus.A historiadora Susan Zucotti, da Universidade de Colúmbia, nos Estados Unidos, não tem dúvida: se Pio XII tivesse sido mais incisivo, teria ajudado a salvar muitas vítimas. No livro Under His Very Windows: The Vatican and the Holocaust in Italy (“Sob suas próprias janelas: o Vaticano e o Holocausto na Itália”, sem edição no Brasil), ela lembra que os croatas fascistas eram muito devotos e, por isso, suscetíveis a acatar pedidos feitos pelo papa. “Como as autoridades da Igreja deixaram os católicos em ambiguidade moral ao não falar, a grande maioria deles se manteve como espectadora”, afirma o historiador Michael Phayer em seu livro The Catholic Church and the Holocaust (“A Igreja Católica e o Holocausto”, sem edição disponível no Brasil).É certo que muitos católicos arriscaram a vida para esconder os judeus em suas casas, igrejas e escolas. No entanto, para Zucotti e Phayer, eles prestaram essa ajuda apesar do papa, e não por causa do que ele disse ou fez. “Pio XII fez relativamente pouco pelos judeus, quando eles necessitavam, e os católicos fizeram muito mais”, diz Phayer. Os críticos do sumo pontífice também questionam por que ele nunca excomungou Hitler, Heinrich Himmler (1900-1945) e outros chefes nazistas, que eram católicos batizados. Essa simples ação, argumentam, teria tido um importante efeito sobre fiéis – algo de que os defensores de Pio XII duvidam.Mais espinhoso que acusar o papa de omisso é considerá-lo antissemita. É o que faz o jornalista e escritor John Cornwell, que cita uma carta escrita por Pacelli na época em que ele era embaixador do Vaticano em Munique. Ao relatar seu espanto com uma manifestação de bolcheviques na cidade, ele se referiu ao líder do grupo, Max Levien (1885-1937), como “russo e judeu; pálido, sujo, olhos de drogado, vulgar, repulsivo”. Na carta, ele também diz que a namorada de Levien era “judia” e que integrava “um bando de mulheres de aparência duvidosa, judias, como todos ali”. Pode ser coincidência, mas essa referência ao fato de serem judeus, em meio a descrições de repulsa física, é um velho clichê antissemita.O historiador americano Daniel J. Goldhagen, autor do livro Uma Dívida Moral, vai além. Ele acusa a Igreja Católica de ser a maior responsável pelo racismo que desembocou no Holocausto. Para Goldhagen, a Igreja abrigou durante milênios o antissemitismo como parte integral de sua doutrina (leia quadro na pág. 37).A favor de Pio XIIO principal argumento em defesa do papa é simples: se ele tivesse se posicionado com mais vigor, haveria retaliação. E alguns dos especialistas que dizem isso são judeus. “Uma condenação pública mais forte teria provocado represálias nazistas contra o clero católico na Alemanha e nos países ocupados. Também colocaria em risco a vida dos milhares de judeus escondidos no Vaticano, em igrejas e conventos da Itália, além dos católicos que os protegiam”, diz o rabino e historiador americano David Dalin, autor do livro The Myth of Hitler’s Pope (“O mito do papa de Hitler”, sem tradução).De acordo com o rabino, Pio XII pediu às igrejas italianas que abrigassem judeus quando as tropas alemãs ocuparam Roma, em 1943, e assim evitou que milhares deles fossem deportados a Auschwitz. “Na cidade, 155 conventos e mosteiros abrigaram cerca de 5 mil judeus durante a ocupação alemã. E outros 3 mil se refugiaram em Castel Gandolfo, a residência de verão do papa”, afirma. Dalin rejeita a ideia de que Pio XII era antissemita: pelo contrário, ele o indicou ao título de “Justo entre as Nações”, utilizado em Israel para descrever não-judeus que arriscaram suas vidas durante o Holocausto para salvar vidas. Afinal, Pio XII tinha motivos para temer por sua própria vida: Hitler planejava invadir o Vaticano e sequestrá-lo (veja na pág. 35).Outro defensor de Pio XII é o historiador e diplomata israelense Pinchas Lapide, ex-cônsul de Israel em Milão. Em sua obra Three Popes and the Jews (“Três papas e os judeus”, sem versão no Brasil), Lapide conclui que o líder religioso “foi instrumental para salvar pelo menos 700 mil judeus, e provavelmente 860 mil, da morte certa na mão dos nazistas”. Uma cifra exagerada, segundo os críticos. Seja como for, Lapide justifica a tese de “maior protesto, maior retaliação” citando o exemplo da Holanda, país onde os bispos católicos mais resistiram às perseguições nazistas. Em cada igreja, eles leram uma carta denunciando o “tratamento sem misericórdia aos judeus”. O resultado? “Enquanto os bispos protestavam, mais judeus, cerca de 110 mil, ou 79% do total, eram deportados aos campos de extermínio”, diz o historiador.Os partidários do papa também argumentam que seu silêncio é uma falácia. Garantem que seus discursos de Natal foram entendidos como uma clara denúncia do extermínio judeu. E citam como prova os editoriais que o jornal americano The New York Times (hoje crítico do pontífice) escreveu na época. “A voz de Pio XII é a única no silêncio e na escuridão envolvendo a Europa neste Natal”, afirmava um texto, em edição de 1941. A homilia de 1942 teria deixado os nazistas furiosos, afirma o historiador irlandês Eamon Duffy, autor de Santos e Pecadores — História dos Papas. “A Alemanha considerou que o papa tinha abandonado qualquer pretensão de neutralidade”, diz.Tem mais. Para o escritor americano Kenneth D. Whitehead, é ingênuo pensar que maior protesto de Pio XII levaria os católicos a se opor aos nazistas, como se os fiéis seguissem automaticamente suas recomendações — o que não ocorre nem com a proibição à camisinha. “O fato é que a maioria dos católicos alemães, especialmente no início, viu em Hitler o salvador de seu país, em meio à crise pela derrota na Primeira Guerra. Os nazistas chegaram ao poder de forma totalmente legal. Só depois impuseram um regime totalitário”, diz Whitehead no artigo The Pope Pius XII Controversy (“A controvérsia do papa Pio XII”, inédito em português).Em meio ao debate, o papa Bento XVI decidiu congelar novamente a campanha de beatificação de Pio XII e aguardar até que seja feita uma pesquisa mais conclusiva e esclarecedora sobre sua história. Enquanto isso, o sucessor do polêmico papa, João XXIII (1881-1963), já foi beatificado e a campanha por João Paulo II (1920-2005) corre a passos largos.Líder infalívelA abertura de arquivos do Vaticano sobre os anos do Holocausto seria o primeiro passo nesse estudo aprofundado sobre as ações de Pio XII durante a guerra, embora muitos considerem que mesmo isso não vá adiantar nada. “Se existisse um documento mostrando claramente o envolvimento de Pio XII em favor dos judeus, o Vaticano já o teria mostrado. E se algum outro revelasse que ele foi colaborador dos nazistas, com certeza, já teria sido removido”, diz o jornalista Anshel Pfeffer, do diário israelense Haaretz.Segundo ele, a polêmica em torno da beatificação de Pacelli vai além do debate sobre fatos históricos e da disputa entre o Vaticano e as organizações judaicas. Ela também reflete uma disputa interna católica que vem desde o século 19: a briga entre os que defendem o poder papal infalível e os que o rejeitam. “As atitudes de Pio na guerra não são o principal argumento dentro do Vaticano para torná-lo santo. Os que o defendem preservam sua imagem de último líder católico conservador do século. Sua adoração é central para os que creem na versão mais extrema da infalibilidade papal”, diz Pfeffer.No fim das contas, quem sabe o papa seja bem menos do que falam sobre ele — para o bem ou para o mal. Talvez seu grande problema tenha sido a obrigação de exercer, ao mesmo tempo, o papel de líder político e de chefe religioso numa época difícil, tendo que conjugar seu dever moral com os interesses de um Estado. Talvez ele tenha sido apenas uma pessoa ambígua, num período ainda mais ambíguo. Ou, quem sabe, o embaixador do Vaticano que virou Vigário de Cristo jogou com as regras da diplomacia, enquanto esperava com paciência pelo fim da guerra. A mesma paciência que, hoje, as pessoas precisam ter para saber quem realmente foi Eugenio Pacelli.Enviados especiaisHitler e Pio XII nunca se encontraram, mas usaram intermediários para negociarHitler e o cardeal Eugenio Pacelli (futuro papa Pio XII) foram os protagonistas da concordata de 1933, pela qual o Estado alemão e o Vaticano se reconheceram mutuamente. Mas outros personagens atuaram para facilitar o diálogo. Conheça alguns deles.Pietro GasparriEsteve à frente da elaboração do Código Canônico e foi quem negociou com Benito Mussolini o Tratado de Latrão, na gestão do papa Pio IX. Em 1901, o monsenhor convidou Eugenio Pacelli (na época, um jovem padre) para trabalhar com ele na Secretaria de Estado do Vaticano. Nos 30 anos seguintes, Gasparri e Pacelli formaram uma parceria que arquitetou a política de concordatas e moldou o crescimento do poder papal ao longo do século 20.Ludwig KaasLíder do Partido do Centro Católico alemão, era padre e íntimo colaborador de Pacelli. Em suas viagens constantes entre Berlim e Roma, foi uma peça-chave na negociação da concordata de 1933 — que extinguiu seu próprio partido para que o papa assumisse maior controle sobre os católicos na Alemanha. Também teria atuado em uma frustrada tentativa de aproximação com membros das Forças Armadas alemãs que buscavam uma negociação de paz, à revelia de Hitler.Franz von PapenUltradireitista, de inclinações monarquistas, teve atuação importante na dissolução da República de Weimar. Foi chanceler alemão em 1932 e vice-chanceler após a subida de Hitler, para o que contribuiu diretamente. Manteve uma relação dúbia com o nazismo e foi quem assinou a concordata com Pacelli, na Secretaria de Estado do Vaticano, em julho de 1933.Ernst von WeizsackerEmbaixador alemão no Vaticano, recebeu de Hitler a missão de encorajar Pacelli a manter a imparcialidade da Santa Sé durante a guerra. Comunicou ao papa que seu governo respeitaria a integridade do Vaticano e suas propriedades em Roma. A condição: ficar calado sobre as perseguições nazistas. Mas ameaçou instituições católicas suspeitas de abrigar judeus e socialistas.Vaticano na linha de frenteEnquanto os EUA bombardeiam Roma, nazistas tentam raptar o papaEm 9 de julho de 1943, Pio XII não teve dúvidas ao ouvir os estrondos que ecoavam em Roma: ele estava encurralado no meio da guerra. Apesar de seu esforço para que a capital italiana fosse declarada cidade aberta, aviões americanos bombardearam a cidade. O ataque precipitou a queda do ditador Benito Mussolini, que foi deposto duas semanas depois pelo rei Vitório Emanuel III e um grupo fascista rival. A situação piorou em setembro, quando os alemães ocuparam a Cidade Eterna e colocaram os judeus na mira. Eugenio Pacelli se viu num dilema: se protestasse contra a invasão, poderia sofrer uma represália violenta contra o Vaticano. Os alemães temiam que uma crítica do papa gerasse uma reação em cadeia na população italiana, o que colocaria em risco a ocupação. Mas Pio XII sabia que sua própria vida estava em risco, pois os nazistas planejavam sequestrá-lo. A advertência tinha sido feita pelo embaixador alemão na Santa Sé, Ernst von Weizsacker. “Os nazistas deram duas opções a Pio XII: selar os lábios ou o seu destino”, escreve o jornalista americano Dan Kurzman no livro Conspiração contra o Vaticano. Hitler tinha encomendado o sequestro ao general Karl Wolff, chefe das SS na Itália. A missão era invadir o Vaticano, raptar o papa e levá-lo à Alemanha ou ao território neutro de Liechtenstein. Mas Wolff titubeou. “Até então, ele havia atendido a qualquer ordem do Führer. Mas sequestrar o papa era uma loucura. Poderia colocar toda a Itália e a Igreja contra a Alemanha”, diz Kurzman. Wolff temia ser enforcado, se os aliados vencessem a guerra, e decidiu sabotar o plano de Hitler esperando se salvar com o apoio do papa. Deu certo. Pio XII também adotou dupla postura. Permitiu que judeus fossem abrigados em igrejas, mas nunca abriu a boca contra a ocupação, nem quando viu de suas próprias janelas milhares de judeus sendo amontoados em caminhões e deportados de trem rumo a Auschwitz.Rota de fugaPio XII ajudou nazistas a escapar para a América do SulNinguém sabe ao certo até que ponto Pio XII protegeu os judeus. Mas já não há dúvida de que ele ajudou nazistas católicos a escapar da Europa para Buenos Aires, na Argentina. A rota de fuga foi armada, logo após a Segunda Guerra, pelo Vaticano, a Igreja Católica argentina e o governo de Juan Domingo Perón (1895-1974). É o que afirma o jornalista argentino Uki Goñi, que rastreou o plano em arquivos da inteligência americana, da Cruz Vermelha e de países europeus. “Documentos que encontrei no Escritório de Registro Público de Londres demonstram que o papa sabia da fuga e intercedeu para evitar que alguns criminosos croatas chegassem à Justiça”, diz Uki, que conta essa história no livro A Verdadeira Odessa. A rede funcionava basicamente assim: o Vaticano pagava as passagens e dava passaportes com pseudônimos aos criminosos de guerra, e Perón lhes garantia o visto para entrar na Argentina. A Cruz Vermelha fornecia os passaportes. Os Estados Unidos e a Inglaterra não se intrometiam, mas as autoridades suíças foram além. Permitiram o trânsito ilegal dos nazistas por dentro de seu território. Foi graças a esse plano que Adolf Eichmann (1906-1962), Josef Mengele (1911-1979), Erich Priebke e outros genocidas encontraram um porto seguro na América do Sul. Eichmann só foi preso em 1960, em Buenos Aires (e enforcado depois pelo governo de Israel). Priebke foi localizado em 1991 no mesmo país (e condenado por tribunal italiano à prisão domiciliar). E Mengele morreu afogado em 1979, sob nome falso, no Brasil.
AVENTURAS DA HISTÓRIA – EDIÇÃO 67 – EDITORA ABRIL

Atenas, o berço do Ocidente
Democracia, imperialismo, educação, arte e até malhação: as raízes do nosso mundo surgiram na cidade mais poderosa da Grécia antiga
por Reinaldo José Lopes
É a festa da democracia em Atenas e todos os cidadãos, dos magnatas aos mais humildes, foram convidados. Quem passa pela ágora, a praça do mercado, logo vê os dez portões pelos quais entram os que vão votar. É dia de eleição e há um clima de ansiedade no ar: o cidadão que receber 6 mil votos ou mais será expulso sumariamente da cidade e do território em torno controlado por ela, por dez anos. Trata-se de um pleito de ostracismo. Os eleitores só precisam rabiscar o nome do “candidato” ao exílio num caco de cerâmica, o chamado ôstrakon (ou ôstraka, no plural), e depositá-lo num grande jarro. Um grupo de camponeses hesita perto dos portões: entrar ou não entrar? Eles não sabem escrever e estão inseguros, mas um homem de túnica elegante se aproxima para dar uma mãozinha. “Percebo que os senhores têm dificuldade com a escrita e seria uma injustiça não poderem participar. Eis aqui alguns votos já prontos”, diz, enquanto oferece a eles as cédulas em que, maliciosamente, inscreveu, provavelmente, o nome do seu inimigo. Agradecidos, os camponeses já podem votar. A cena fictícia se passa na Atenas de 2500 anos atrás. Mas qualquer semelhança com o conhecido voto de cabresto, flagelo da democracia contemporânea, não é mera coincidência. Muito do pensamento e da vida do Ocidente, no século 21, foi antecipado pelos gregos, em especial pelos atenienses do século 5 a.C.A lista é comprida. Além do sistema de participação política (com seus méritos e problemas), Atenas criou um modelo educacional voltado para a cidadania, levou para o teatro os dilemas existenciais da humanidade, aperfeiçoou a filosofia e a retórica, elevou o culto do corpo ao status de arte, integrou os relacionamentos homossexuais à sociedade com pouco ou nenhum preconceito. Também estava lá a mistura contemporânea de democracia com imperialismo, muitas vezes associada aos Estados Unidos, em que a ideia da liberdade vale muito internamente, mas pouco na política externa e no trato com os vizinhos.
REVISTA AVENTURAS DA HISTÓRIA – EDIÇÃO 68 – EDITORA ABRIL

Published in: on 07/07/2009 at 8:42  Comments (3)  
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3 ComentáriosDeixe um comentário

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  2. professor eu vou imprimir todos os textos ou quase todos ta bom assim eu nao presiso ficar fazendo u de cada vez

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